segunda-feira, 17 de junho de 2013



Há duas maneiras de se entender democraticamente o que está indo pras ruas nesse momento em minha opinião:

Primeiro é que a democracia pode ser compreendida, mesmo com o risco do simplismo, o poder que emana do povo, é exercido pelo povo, para o bem do povo. Em síntese, democracia republicana é o exercício de administrar a coisa pública de modo a atender os interesses coletivos.

A segunda maneira de compreender a democracia está voltada para tensão das forças entre os diferentes grupos representativos da sociedade. Todos os segmentos da sociedade têm direito e liberdade de associação, expressão e mobilização para a busca dos seus próprios interesses. Em termos mais simples ainda, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, e assim a brasa fica espalhada e igualmente dividida para todas as sardinhas. 

Na prática, isso é cruel. Primeiro, porque  quem não se expressa, não se associa e não se mobiliza, acaba ficando sem brasa para a sua sardinha. Mas também e principalmente porque aqueles que têm mais condições de expressão, associação e mobilização ficam com porções significativas de brasa em suas sardinhas. 

Quem detém os poderes econômicos, políticos e de comunicação de massa leva vantagem. Em outras palavras, como todos sabemos, sobra para os pobres, que, aliás, nem mesmo sardinhas têm. 

O melhor exercício da democracia é mesmo aquele em que cada cidadão está imbuído da busca dos interesses coletivos, independentemente de seus próprios interesses ou de seus grupos respectivos. Em termos ideais, os detentores do poder – em todas as instâncias – deveriam exercê-lo para o bem comum e a promoção da justiça na sociedade. Se a res é pública, todos os cidadãos deveriam dela se beneficiar. 

A expressão, associação e mobilização na defesa dos interesses particulares de pessoas ou grupos é uma traição aos ideais da democracia republicana.

Agora o que isso tem a ver como minha fé? Com meus ideais, ideologias e convicções?

Desmond Tutu ensinou que “não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam”. 

Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. 
O Cristão é sim, chamado a viver dia a dia a prática de uma fé, que, por se manifestar sempre a favor da justiça, invariavelmente trará, como resultado de sua ação transformadora, conseqüências políticas. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político. 

 “Terceirizar os deveres cívicos significa aviltá-los e tratá-los da maneira errada”  diz Michael Sandel, autor do best seller Justiça, baseado em curso homônimo que atualmente ocupa a lista dos mais populares da Universidade de Harvard. Por isso acho que devemos sim, ir as ruas hoje.

Mas o que me preocupa é em nome do que tomaremos as ruas hoje? Qual a nossa motivação verdadeira?

Me refiro a esses! Desses que roubaram o perfil da revista Veja, os vândalos disfarçados de ativistas e todos que usam da violência para falar, não perceberam ainda o tamanho do desserviço que estão prestando à mobilização legítima dos movimentos por direitos no Brasil. 

Querem interferir no mundo usando as armas cínicas do mau-caratismo. E agora muitos relativistas da moral, os amigos da pancadaria e do vale-tudo vão se posicionar dizendo: "que coisa adorável", "bem feito, fascistas!". 

Sempre fui um anti-revolucionário convicto por meio da avaliação histórica desses tais movimentos revolucionários que nunca deixaram de repetir a opressão, em grau até mesmo superior, daqueles que diziam combater. Hoje sou um anti-revolucionário mais convicto por ver parte da minha geração sorrindo com as mãos sujas, vibrando enquanto pratica a imoralidade e a corrupção que pretende combater. 

Minha revolução é a da paz, do amor, por mais piegas que isso soe. 

Hoje eu visto o branco e vou as ruas, em nome da paz, em nome da justiça.

Viva o diálogo! Viva o respeito! Viva a mudança pelo caminho da paz!
Não entre no jogo desses que não sabem pra onde querem ir!

De que adianta estar vestido de branco
E ter no rosto um sorriso amarelo
Se a paz não é um estado de espírito
Se por dentro há uma grande e interminável guerra


A paz não é o que se encontra no mundo
Que paz é essa que se arma prá guerra?
Aonde está o fim da destruição?
Ansiedade quer vencer o desespero do coração

Ouço a voz que diz: A minha paz vos dou! Agora tudo vai mudar!¹




"Felizes são as pessoas que trabalham pela paz." Jesus de Nazaré


¹Resgate - O Nome da Paz

sexta-feira, 7 de junho de 2013




Eu também tenho mais perguntas do que respostas. Mas das respostas já não faço questão. M. Guyon disse que "se as respostas às perguntas da vida são absolutamente necessárias para você, então esqueça a viagem. Você nunca chegará lá, pois esta é uma viagem de incógnitas, de perguntas sem resposta, de enigmas, de coisas incompreensíveis e, principalmente, injustas". 

Andamos por fé. A fé não tem a ver com certezas, mas com confiança. Confiança em Deus, seu caráter justo, amoroso e bom. Jesus também fez uma pergunta e não obteve resposta. O que lhe doía não era a falta de explicações, mas o desamparo. No dia da tragédia não precisamos de respostas, precisamos de alguém. Deus é suficiente para compreender nossa perplexidade, assumir posição de réu sob nossas dúvidas, e sofrer o peso da nossa dor. 

Assim creram os antigos: Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação, pois nem a morte, pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. 

Eu também choro. Sei que a vida continua, que não posso ficar preso ao passado, que devo levantar a cabeça e seguir em frente, que tenho ainda minha própria vida para viver… Mas antes preciso chorar. Preciso acolher meu sofrimento, dar a ele boas vindas, permitir que a tragédia faça seu caminho até o mais profundo do meu coração, fazer com que a dor traga de volta lembranças abafadas pela correria da vida, promova arrependimentos, desperte sonhos adormecidos, traga para a luz memórias de afeto e alegria. Assim posso purgar tudo isso sem medo, vencer a escuridão com a coragem de chorar. Oferecer minhas lágrimas como a mais legítima das orações e o meu pranto como o mais sublime tributo de amor. 

Jesus também chorou diante da morte. Deus é suficiente para nos outorgar perdão, redimir palavras e gestos, recolher as palavras e gestos que jamais deveriam ter ganho concreção, e dar destino ao que ficou por dizer e fazer. Deus é bom e sabe amar, capaz de enxugar nossas lágrimas e dar sentido e significado ao nosso sofrimento. Assim creram os antigos: a tribulação produz. 

Eu também fico indignado. Também não me conformo com os desmandos de um país que agoniza sob incompetências, negligências, imperícias, imprudências, e, principalmente, a corrupção sistêmica e a injustificada impunidade. 

Mas não vou permitir que isso me torne cínico e cético. Vou dar mais ouvidos aos idealistas, me agarrar às forças das utopias, me deixar levar nas asas da esperança. Vou arregaçar as mangas, arar a terra e semear o solo regado com o sangue dos justos e inocentes. Vou repartir como meu próximo os frutos do meu sofrimento, compartilhar o labor com tantos irmãos que ainda não se curvaram diante da mediocridade, não se deixaram vencer pelas forças das trevas, e não se intimidaram face aos promotores e mantenedores da morte. 

Jesus também sofreu, e não desistiu. Jesus também morreu. E sua ressurreição é não apenas convocação para a luta, mas garantia de vitória. Assim creram os antigos: eu sei que meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra!