terça-feira, 31 de dezembro de 2013


A garantia que viveremos novas todas as coisas, todos os dias é nos dada de graça pelo coração de quem é capaz de dar a vida pelo novo! O novo é um caminho cristão! Aquele que é capaz de apagar o passado, esquecê-lo, é também quem transforma o velho em novo. A morte em vida.

É nesse coração divino de Cristo que vivemos pelo menos 4 experiências de renovação da vida que foi derramada em nós:

A primeira delas é a consciência de sermos filhos e filhas no Filho, que irrompe no profundo da alma. Não importa o quão sujos, surrados ou consumidos, nós, os filhos pródigos, somos sobrepujados por uma afeição paterna tão profunda e terna que nos faltam palavras. Enquanto nosso coração pulsa no ritmo do coração do mestre, experimentamos graça, gentileza e cuidado compassivo tais que esperam nossa compreensão. Este é o enigma do evangelho: como o Outro Transcendente  pode estar tão incrivelmente próximo, ter um amor tão livre de reservas? Temos apenas uma explicação: o mestre nos diz que é assim.

Em segundo lugar percebemos que não estamos sozinhos na nova estrada de tijolinhos amarelos. O transito é intenso. Os companheiros de viagem são muitos. Não somos mais somente eu e Jesus. A estrada está salpicada de gente moral e imoral, bela e molambenta, amiga e inimiga, pessoas que nos ajudam e nos atrapalham. Seres humanos de complexidade e diversidade extraordinárias. A grande lição de amar ao próximo como a nós mesmos já sabemos há muito tempo, mas casamentos tristes, famílias problemáticas, igrejas divididas, sociedades hostis e injustas indicam que não aprendemos direito. 

O mestre não cansa de ensinar que o amor é a chave para a renovação da vida.  Na vida do novo, viver e amar são a mesma coisa. O coração fala ao coração. O Mestre roga: "Você não entende que o discipulado não tem nada a ver com capricho, perfeição ou eficiência? Tem tudo a ver com a maneira pela qual vocês convivem." A cada encontro, damos ou recebemos vida. Nossa reação a necessidade humana é o que nos define. Se velhos ou se novos!

Em terceiro lugar o cristianismo consiste, principalmente, não naquilo que fazemos para Deus, mas no que Deus faz por nós. Quando Deus flui em nossas vidas, no poder de sua Palavra, tudo o que pede é que fiquemos perplexos, boquiabertos e comecemos a respirar fundo a nova vida que nos deu. Espanto, admiração e fascinação induzem a uma humildade silenciosa. Temos um breve vislumbre do Deus que nunca sonhamos que existisse. O inesperado novo, o Deus que faz sempre muito mais do que sonhamos ou poderíamos imaginar. O verdadeiro novo.

Em quarto e último lugar, a vida que é nova se refaz todo dia, e tudo se faz novo de novo. A beleza do reconhecer a imperfeição e da dependência. O nome de Deus é misericórdia. Homens e mulheres sábios há muito sustentam que a felicidade reside em sermos nós mesmos sem inibições. Deixe o Grande Mestre apertá-lo, silenciosamente, perto do Seu coração. Conhecendo quem Ele é, descobrirá quem você é: filho de Deus, em Cristo que faz nova todas coisas, e que as coisas velhas já passaram, e tudo se fez novo.... 
DE NOVO!

Feliz Ano Novo de Novo! 


© Rodrigo Andrade Quintã









segunda-feira, 16 de dezembro de 2013






















Minha vida é testemunho dessa graça vulgar - uma graça que espanta e que ofende. Uma graça que recompensa o trabalhador aplicado que se dedica o dia todo às suas tarefas com o mesmo salário pago ao bêbado sorridente que aparece pra trabalhar às 10 e vai embora as 17h. 

Uma graça que levanta a barra das vestes e corre precipitado em direção ao pródigo pecador malcheiroso e o envolve nela, decidido a dar uma festa de qualquer jeito. Uma graça que ergue os olhos injetados de sangue e acolhe o pedido de um ladrão moribundo - "Por favor, lembre-se de mim" - e diz a ele: "É lógico que sim!".

Uma graça que é o prazer do Pai encarnado no Messias carpinteiro, Jesus, o Cristo, que deixou a direita do Pai não por causa do céu, mas por causa de nós, de você e de mim. Essa graça vulgar é compaixão indiscriminada. Ela opera sem pedir nada de nós. Não é barata. É gratuita, e por isso mesmo será sempre uma casca de banana no caminho dos ortodoxos e um conto de fadas para a sensibilidade adulta. A graça é suficiente, embora nos debatamos e tentemos encontrar alguma coisa, ou alguém, que ela não seja capaz de cobrir.

A graça é suficiente. Ela é suficiente. Jesus é suficiente. O amor do Pai não pode ser compreendido.



© Rodrigo Andrade Quintã

terça-feira, 10 de dezembro de 2013


"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós..." (João 1:14)

Jesus foi totalmente Deus e totalmente Homem. Muito falamos de sua divindade e de como nos ensinou sendo o próprio Deus entre nós. E como homem? Em sua humanidade Jesus nos trouxe também bastante "coisa" pra aprender. E dentre todas estas "coisas", escolhi 10 que me parecem ser um bom caminho a seguir:

1. É necessário sentir. Acolher a dor. Receber a alegria. Chorar e sorrir. Irar-se e acalmar.

2. É preciso tocar. Ir perto, bem perto. tão perto que eu sou você e você sou eu.

3. Abraçar o abraço solitário. Repartir, dividir e compartilhar. Estar junto com outros e outros com você, juntos. Sentar a mesa com amigos. Conversar.  Caminhar junto. Ganhar tempo em comunidade. Não se perde tempo quando se está entre irmãos.

4. Viver a vida abundante. Viva intensamente! Dê o melhor! Busque! Cada instante e cada momento é um momento singular. O presente é o que temos. O mais importante da sua vida. Basta cada dia seu mal.

5. Estar com quem precisa estar. Com quem não precisa, ensinar a estar. Sempre estar onde precisam. Não se negocia amor e justiça por política, dogma ou religião.

6. Escolher e decidir. Ter a responsabilidade sobre cada passo. Andar no caminho que é seu, mas sempre na companhia de Deus. Tão importante quanto saber pra onde se vai, é com quem se vai.

7. Reputação e Caráter não são a mesma coisa. Caráter você constrói. Reputação constroem em você. Caráter fala POR você. Reputação falam DE você.

8. Há perguntas que não têm respostas, ou que não serão respondidas. Mas tê-las faz parte de ser humano.

9. Ser a imagem e semelhança nos torna próximos do Pai. Querer ser Igual ao próprio Deus, nos faz diabos.

10. Ser feliz está no servir. Feliz em servir é ser. E ser porque o outro é.  O Deus que é homem, é um só com o Deus que é, e um só com Deus que é Espírito. E que não há mais ninguém melhor do que Este que se fez Homem.  Ser um só com outro, portanto, é humano no encontro, e divino no ser.

© Rodrigo Andrade Quintã

quinta-feira, 28 de novembro de 2013


Querer sem querer ter. 
Ter e não ser seu. 

Não ser seu e estar em você. 
Ser um e Querer dividir.

Multiplicar o que se divide.
Em mim em você em nós. 

O que É dois São um.
O que sou agora é somos.

Eu sou você, você sou eu.
Paradoxo da trindade.

O espelho dos encontros da humanidade.
A imagem e semelhança refletidos nos olhos daquele que olha alma. Daquele que olha e ama. 
Somos iguais nos olhos e no olhar daquele que nos fez únicos. Daquele que nos fez um.


© Rodrigo Andrade Quintã

quinta-feira, 21 de novembro de 2013















Eu quero um evangelho inteiro! Não me ofereça um evangelho de metades, meia boca, que não seja completo. Não quero um evangelho proclamado aos pedaços. Ele tem que ser todo! Não quero me conformar com essa subcultura evangélica que se aloja em nosso meio.

O evangelho redentor, que era outrora uma mensagem que visava à transformação do mundo, estreitou-se agora a uma mensagem de resistência ao mundo.O fundamentalismo, ao rebelar-se contra o Evangelho Social, aparentemente também se revoltou contra o imperativo social cristão. Ele não questiona as injustiças dos totalitarismos, os secularismos da educação moderna, os males do ódio racial, o erro da política do jeitinho, da corrupção sistêmica e de todo mal enraizado numa sociedade injusta, e de minorias.Não há espaço para um evangelho que seja indiferente às necessidades do homem integral ou do homem global. 

"A glória de Deus é compartilhar. É repartir, é dividir, multiplicar..." Gerson Borges

E por fim lamento a “oscilação" um tanto primitiva em ir de um extremo a outro. Um cristianismo que perdeu sua dimensão vertical carece de sal e não apenas é insípido em si, mas inútil para o mundo. Um cristianismo, porém, que usasse a preocupação vertical para evadir sua responsabilidade pela e na vida comum do homem é uma negação da encarnação. 

"Se ficarmos neutros perante uma injustiça, escolhemos o lado do opressor." Desmond Tutu


© Rodrigo Andrade Quintã

quarta-feira, 30 de outubro de 2013


Por onde Jesus passava era possível ver crianças correndo em volta e se misturando na multidão. Os discípulos tentaram impedir que as crianças se amontoassem no colo de Jesus. Achavam que Jesus tinha coisa mais importante para fazer do que dar atenção às crianças, mas acabaram descobrindo que não apenas as crianças gostavam de Jesus, mas Jesus também gostava das crianças. Numa dessas ocasiões, Jesus pegou uma criança no colo e deixou muito claro que quem não se torna igual a uma criança não pode entrar no reino dos céus, pois o reino dos céus pertence aos que são semelhantes às crianças [Mateus 18.1-5; 19.13-15]. Naquele dia as crianças se tornaram um padrão para a espiritualidade cristã.

Evidentemente, Jesus não pretendia que nos tornássemos iguais às crianças em todas as dimensões da infância. As crianças, por exemplo, não sabem o que é a gratidão, pois não têm noções de medidas abstratas. Não têm condições de avaliar o que é feito por elas, não sabem quanto sacrifício é necessário para que sejam cuidadas e não têm critérios para os custos da dedicação dos pais ou o valor das coisas que são oferecidas a elas. Por isso é que os pais vivem dizendo “diz obrigado para a titia”, “já disse obrigado para o vovô?”, pois se não o fizessem, as crianças simplesmente pegariam o presente e sairiam correndo para brincar. As crianças também não têm noções de tempo, distância e volume. Por isso é que usam palitos de fósforo para marcar quantos dias faltam para o passeio no zoológico, numa viagem longa perguntam de cinco em cinco minutos se está chegando, e de noite, antes de irem para a cama, abrem os braços e dizem com aquele sorriso lindo “mamãe, eu te amo desse tamanho assim”.

As crianças também estão absolutamente fora das categorias sociais de valores e importância. Tratam o general com a mesma displicência com que tratam o zelador do prédio onde moram, e falam as maiores barbaridades quando percebem algo inusitado em algum adulto que pretende conquistar sua simpatia, deixando os pais envergonhados e constrangidos. Elas não sabem quem é importante e quem não é. Elas ainda não foram contaminadas com os paradigmas do mercado, que valora pessoas de acordo com posição social, conta bancária, ou potencial de favorecimento e trocas de favores. 

Isso significa que uma criança jamais perguntaria para Jesus “quem é o mais importante no reino dos céus?”, pois não lhes passa pela cabeça que um ser humano pode ser maior ou menor do que o outro em termos de valor intrínseco – aliás, nem imaginam que exista ou o que seja esse tal de “valor intrínseco”.

A exortação de Jesus aos seus discípulos sublinha exatamente esses traços próprios das crianças: o absoluto despojamento das disputas de poder e a absoluta ignorância a respeito das hierarquias que separam os seres humanos uns dos outros, e promovem toda sorte de guerras e conflitos, que somente se justificam pela vaidade e o orgulho dos egos que pretendem se afirmar às custas da diminuição e destruição dos demais.
Como seria o mundo se todos tivéssemos o coração das crianças? Teríamos breves desentendimentos, logo seguidos de um enxugar de lágrimas e a correria reiniciada rumo à próxima brincadeira. Haveria mais cooperação e menos competição, mais perdão e menos ressentimento e ódio, mais partilha e menos acúmulo, maios brincadeira e menos agressões, mais amores e menores dores. 

O rabino Harold Kushner disse que as crianças perdoam rápido, e se reconciliam na velocidade da luz, pois “preferem ser felizes a ter razão”. São simples, e humildes, não se constrangem com vitórias e derrotas, pois não competem, apenas brincam. Não estão no jogo de “quem é o maior e quem é o menor”.

O relacionamento no Reino de Deus extrapola racionalidades, como a relação das crianças.
O reino de Deus é um reino para gente com coração de criança. Todo mundo brincando de roda, cada um segurando na mão do outro, sem restrição para quem chegar, apoteose da fraternidade universal, sob a benção do Pai, do Filho e do Espírito Santo, numa santa e bendita folia. Coisa de criança.

“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” (Antoine de Saint-Exupéry)


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Passei um tempo preocupado em responder perguntas do tipo: Qual sua Religião? De que igreja você é? Qual igreja você pertence? Você é evangélico?

Cansei de querer me explicar nas respostas que dava, e passei a entender que faço parte do Reino. Frequento uma comunidade que não está restrita aos limites físicos e geográficos, comunidade de gente que entende que o Rei é um só, e está em missão no mundo. Você escolhe fazer parte ou não. Onde o único pré-requisito para alistamento é ser humano. E fazer parte significa, acima de qualquer dogma ou ideologia, ser embaixador da vida e isso consiste num imenso privilégio. Se alistar no meio daqueles que proclamam a Alvorada no meio das trevas. Sinalizam a vida que chegou.

Quando o lacre romano do túmulo de Jesus foi rompido no domingo da ressurreição, a vida afirmou sua vitória sobre os agentes promotores e mantenedores da morte, sobre os processos de morte, que serão enfrentados pela esperança de que um dia a própria morte, último inimigo, cairá de joelhos diante do Senhor da vida. O Reino de Deus é a comunidade dos que se rebelam contra a morte em todos os lugares e todas as dimensões, e contra ela lutam com todas as forças que recebem do doador da vida.

Nossa fé foi construída por gente que foi a toda luta que entendeu justa, pondo em risco a própria vida, e por mártires, por gente que se recusou a matar, pois nós cremos que Deus é amor, e que o amor de Deus é mais forte do que a morte (Rm 8.38). E por amor a Deus e ao seu Cristo lutamos pela unidade e pela liberdade da humanidade.

A nossa missão, o chamado de todos nós, portanto, é ser “pessoas do Reino”. Pessoas do reino procuram, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua Justiça, ao invés de frequentemente, antepor o trabalho da igreja às preocupações com a justiça, a misericórdia e a verdade. Pessoas do Reino não pensam em como trazer outras pessoas para dentro da igreja; pessoas do Reino se preocupam em inserir a igreja no mundo. Pessoas do Reino não se incomodam com a possibilidade do mundo mudar a igreja justamente porque pessoas do Reino trabalham para que a igreja transforme o mundo. E por último, devido ao seu relacionamento essencial com o mundo, sua vida em missão frente a frente ao mundo, constitui um privilégio.

“A Missão da igreja é manifestar aqui e agora, a maior densidade possível do Reino de Deus que há de se consumar ali e além.” Dom Robinson Cavalcanti

O Reino de Deus é a comunidade dos que já não vivem com medo da morte (Hebreus 2.14), dos que anunciam e vivem dimensões da vida, e dos que profetizam a ressurreição até o dia quando, aos pés do Cristo de Deus, celebrarão a vitória daquele que no Apocalipse diz: “Não tenham medo. Eu tenho as chaves da morte e do inferno”, pois “Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último. Sou aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre!”.

E a toda a luta que se vai pela vida, se vai celebrando a vida, cantando vida, numa festa de esperança, paz e graça, entre amigos, em comunidade. Amém.

© Rodrigo Andrade Quintã


"Ouço o som da multidão que vitoriosa chega de mais uma guerra
Lindos refrões ecoam dos portões, louvando o Rei e exaltando Seu nome

E eu quis morrer na batalha ao lutar pelo reino até o fim
Mas fui convocado a cantar das vitórias e guerras que nunca vi
Me reduziria ao pó de onde vim, mas eu não enxergo o que Ele vê em mim

Vejo os rojões, no alto do céu, quebrando o silêncio de sonhos antigos
Pois nunca fui guerreiro ou herói, nem sei se o Rei me conhece por nome

Me reduziria ao pó de onde vim, mas hoje eu enxergo o que Ele vê em mim"*

                                                                                                                                    *Rojões - Os Arrais

segunda-feira, 17 de junho de 2013



Há duas maneiras de se entender democraticamente o que está indo pras ruas nesse momento em minha opinião:

Primeiro é que a democracia pode ser compreendida, mesmo com o risco do simplismo, o poder que emana do povo, é exercido pelo povo, para o bem do povo. Em síntese, democracia republicana é o exercício de administrar a coisa pública de modo a atender os interesses coletivos.

A segunda maneira de compreender a democracia está voltada para tensão das forças entre os diferentes grupos representativos da sociedade. Todos os segmentos da sociedade têm direito e liberdade de associação, expressão e mobilização para a busca dos seus próprios interesses. Em termos mais simples ainda, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, e assim a brasa fica espalhada e igualmente dividida para todas as sardinhas. 

Na prática, isso é cruel. Primeiro, porque  quem não se expressa, não se associa e não se mobiliza, acaba ficando sem brasa para a sua sardinha. Mas também e principalmente porque aqueles que têm mais condições de expressão, associação e mobilização ficam com porções significativas de brasa em suas sardinhas. 

Quem detém os poderes econômicos, políticos e de comunicação de massa leva vantagem. Em outras palavras, como todos sabemos, sobra para os pobres, que, aliás, nem mesmo sardinhas têm. 

O melhor exercício da democracia é mesmo aquele em que cada cidadão está imbuído da busca dos interesses coletivos, independentemente de seus próprios interesses ou de seus grupos respectivos. Em termos ideais, os detentores do poder – em todas as instâncias – deveriam exercê-lo para o bem comum e a promoção da justiça na sociedade. Se a res é pública, todos os cidadãos deveriam dela se beneficiar. 

A expressão, associação e mobilização na defesa dos interesses particulares de pessoas ou grupos é uma traição aos ideais da democracia republicana.

Agora o que isso tem a ver como minha fé? Com meus ideais, ideologias e convicções?

Desmond Tutu ensinou que “não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam”. 

Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. 
O Cristão é sim, chamado a viver dia a dia a prática de uma fé, que, por se manifestar sempre a favor da justiça, invariavelmente trará, como resultado de sua ação transformadora, conseqüências políticas. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político. 

 “Terceirizar os deveres cívicos significa aviltá-los e tratá-los da maneira errada”  diz Michael Sandel, autor do best seller Justiça, baseado em curso homônimo que atualmente ocupa a lista dos mais populares da Universidade de Harvard. Por isso acho que devemos sim, ir as ruas hoje.

Mas o que me preocupa é em nome do que tomaremos as ruas hoje? Qual a nossa motivação verdadeira?

Me refiro a esses! Desses que roubaram o perfil da revista Veja, os vândalos disfarçados de ativistas e todos que usam da violência para falar, não perceberam ainda o tamanho do desserviço que estão prestando à mobilização legítima dos movimentos por direitos no Brasil. 

Querem interferir no mundo usando as armas cínicas do mau-caratismo. E agora muitos relativistas da moral, os amigos da pancadaria e do vale-tudo vão se posicionar dizendo: "que coisa adorável", "bem feito, fascistas!". 

Sempre fui um anti-revolucionário convicto por meio da avaliação histórica desses tais movimentos revolucionários que nunca deixaram de repetir a opressão, em grau até mesmo superior, daqueles que diziam combater. Hoje sou um anti-revolucionário mais convicto por ver parte da minha geração sorrindo com as mãos sujas, vibrando enquanto pratica a imoralidade e a corrupção que pretende combater. 

Minha revolução é a da paz, do amor, por mais piegas que isso soe. 

Hoje eu visto o branco e vou as ruas, em nome da paz, em nome da justiça.

Viva o diálogo! Viva o respeito! Viva a mudança pelo caminho da paz!
Não entre no jogo desses que não sabem pra onde querem ir!

De que adianta estar vestido de branco
E ter no rosto um sorriso amarelo
Se a paz não é um estado de espírito
Se por dentro há uma grande e interminável guerra


A paz não é o que se encontra no mundo
Que paz é essa que se arma prá guerra?
Aonde está o fim da destruição?
Ansiedade quer vencer o desespero do coração

Ouço a voz que diz: A minha paz vos dou! Agora tudo vai mudar!¹




"Felizes são as pessoas que trabalham pela paz." Jesus de Nazaré


¹Resgate - O Nome da Paz

sexta-feira, 7 de junho de 2013




Eu também tenho mais perguntas do que respostas. Mas das respostas já não faço questão. M. Guyon disse que "se as respostas às perguntas da vida são absolutamente necessárias para você, então esqueça a viagem. Você nunca chegará lá, pois esta é uma viagem de incógnitas, de perguntas sem resposta, de enigmas, de coisas incompreensíveis e, principalmente, injustas". 

Andamos por fé. A fé não tem a ver com certezas, mas com confiança. Confiança em Deus, seu caráter justo, amoroso e bom. Jesus também fez uma pergunta e não obteve resposta. O que lhe doía não era a falta de explicações, mas o desamparo. No dia da tragédia não precisamos de respostas, precisamos de alguém. Deus é suficiente para compreender nossa perplexidade, assumir posição de réu sob nossas dúvidas, e sofrer o peso da nossa dor. 

Assim creram os antigos: Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na tribulação, pois nem a morte, pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. 

Eu também choro. Sei que a vida continua, que não posso ficar preso ao passado, que devo levantar a cabeça e seguir em frente, que tenho ainda minha própria vida para viver… Mas antes preciso chorar. Preciso acolher meu sofrimento, dar a ele boas vindas, permitir que a tragédia faça seu caminho até o mais profundo do meu coração, fazer com que a dor traga de volta lembranças abafadas pela correria da vida, promova arrependimentos, desperte sonhos adormecidos, traga para a luz memórias de afeto e alegria. Assim posso purgar tudo isso sem medo, vencer a escuridão com a coragem de chorar. Oferecer minhas lágrimas como a mais legítima das orações e o meu pranto como o mais sublime tributo de amor. 

Jesus também chorou diante da morte. Deus é suficiente para nos outorgar perdão, redimir palavras e gestos, recolher as palavras e gestos que jamais deveriam ter ganho concreção, e dar destino ao que ficou por dizer e fazer. Deus é bom e sabe amar, capaz de enxugar nossas lágrimas e dar sentido e significado ao nosso sofrimento. Assim creram os antigos: a tribulação produz. 

Eu também fico indignado. Também não me conformo com os desmandos de um país que agoniza sob incompetências, negligências, imperícias, imprudências, e, principalmente, a corrupção sistêmica e a injustificada impunidade. 

Mas não vou permitir que isso me torne cínico e cético. Vou dar mais ouvidos aos idealistas, me agarrar às forças das utopias, me deixar levar nas asas da esperança. Vou arregaçar as mangas, arar a terra e semear o solo regado com o sangue dos justos e inocentes. Vou repartir como meu próximo os frutos do meu sofrimento, compartilhar o labor com tantos irmãos que ainda não se curvaram diante da mediocridade, não se deixaram vencer pelas forças das trevas, e não se intimidaram face aos promotores e mantenedores da morte. 

Jesus também sofreu, e não desistiu. Jesus também morreu. E sua ressurreição é não apenas convocação para a luta, mas garantia de vitória. Assim creram os antigos: eu sei que meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra!



sexta-feira, 17 de maio de 2013

A Nossa Luta


Faz um tempo que tenho lido, observado e ouvido sobre tudo isso que atualmente "atinge", no que diz respeito ao movimento evangélico cristão no Brasil, nossas ideologias e crenças.

Primeiro quero dizer que minha formação religiosa é cristã sob a ótica da Reforma Protestante. Mais precisamente de tradição batista, que se apoia em alguns poucos princípios fundamentais. Além dos dois eclesiásticos: a Igreja como comunidade autônoma, composta por pessoas convertidas e batizadas, e a separação entre a Igreja e o Estado, também cremos que a Bíblia é a única autoridade em termos de fé e ética, e no sacerdócio universal de todos os cristãos, que implica a liberdade de consciência, a responsabilidade do indivíduo diante de Deus, e o livre exame das Escrituras.¹


Enfim, percebo, e me incomodo muito, o quanto nos distanciamos da nossa responsabilidade diante de Deus. Dos nossos deveres e da nossa real luta neste mundo. 


Fazemos parte de uma nação em que é conhecida pelo "jeitinho", onde levar vantagem é a "Lei" e que vença o mais esperto. Em tudo, inconscientemente, queremos tirar proveito e nos dar bem, mesmo observando como nossa política é maculada pela fraude, corrupção, mentira, e como todos nós sofremos com este mal que contaminou todas as camadas da sociedade brasileira e em todas as profissões, de diversas maneiras possíveis e de todos os lados. Nem "igreja" é mais sinônimo de "lugar do bem". Mas mesmo assim fazemos o mesmo. Nos corrompemos, entramos no sistema, e dizemos que "não temos escolha" senão dançar conforme a música ou então nos justificamos com a justiça retributiva; "Se eles nos roubam a gente rouba também". 


Agora queremos lutar contra a institucionalização da iniquidade. E levantamos nossa bandeira de defensores da moral  e de vorazes perseguidores da imoralidade que não pode invadir nossas inocentes casas. Quando a tempos mantemos o hábito de assistir tudo que nossa super cultural TV aberta nos entrega em domicílio todos os dias.


Na verdade levantar protestos contra o homossexualismo e tudo mais não me incomoda tanto. O que realmente me incomoda em tudo isso é ver que nos "escandalizamos" muito mais com a questões morais do que com a injustiça, com a impunidade, com a corrupção. E a iniquidade torna-se só aquilo que atinge a "moral" da sociedade. [Amós 5:24]

Me incomoda perceber que nos levantamos contra o que chamamos de imoralidade sexual de forma tão ácida e feroz e nos calamos diante da fraude, do jeitinho, da falta de integridade. E não nos incomodamos com a imoralidade sexual que entra dentro das nossas casas através da TV, da internet. 


Deixamos a morte ganhar território quando não temos a mesma disposição em lutar contra o abuso sexual infantil, a fome, a miséria,a desigualdade social, o trabalho infantil, o trabalho escravo, os crimes ecológicos.


"A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça a justiça em todos os lugares." Martin Luther King


Somos conhecidos por aqueles que são contra os homossexuais, aqueles que não bebem e aqueles que não fumam. Isso realmente me incomoda. A igreja evangélica vive uma ética reduzida, distorcida e com prioridades invertidas. 

[ Is. 58.6-7 ]

Jesus disse: "...eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente." [Jo. 10.10]


Isso quer dizer que somos mais do que moralistas pseudointelectuais, ignorantes e alienados. Somos discípulos daquele que oferece vida! É nossa responsabilidade lutar por VIDA e pela VIDA! Oferecer vida aqueles que estão morrendo. Dar vida a nossa nação. É tempo de amar e servir. Essa é a nossa luta, é a nossa causa, esse é o nosso dever, nossa responsabilidade como seguidores de Jesus.


Quando começarmos a lutar por VIDA, e a nos importarmos com a integralidade cristã para o ser humano, vamos ver que amar o próximo está mais próximo de nossas comunidades, e estaremos mais próximos de Deus. [ IJo 4. 7-13]



"Busquem-me e terão vida;  [Amós 5:4]


                                                                                 Rodrigo Andrade Quintã





¹ Kivitz, Ed ReneO Direito dos  estúpidos e a liberdade dos lúcidos - Art. 2013, SP.