Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas
a abraçarem uma ideia radical e revolucionária de convivência. Hoje em dia é
preciso lembra-las, em primeiro lugar, do que é convivência; que há um mundo
possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um
mundo louco impulsionado pela graça fragilíssima da amizade e não pela
sociedade de consumo, pela internet, pelos times de futebol, pela marca da
roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares,
religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.
Deus é amizade, e a linguagem da amizade é perpetuamente
livre, provisória e gratuita; depende de sujeições voluntárias e de autonomias
ininterruptamente soberanas.
O radical na mensagem de Jesus não está em Ele esclarecer o
mais ou menos óbvio, que as amizades e os relacionamentos são vida e as
instituições morte; o revolucionário está em que ele propõe o passo seguinte,
definitivo e louco, e definitivamente redentor. Em suas palavras e exemplo, o
nazareno explica que até as mais belas amizades podem se tornar morte, a não
ser que se disponham a manter-se perpetuamente abertas, isto é dispostas a
celebrar a própria precariedade e aceitar a inclusão de quem quer que seja em
seu círculo de convivência.
Jesus desafiava continuamente esses limites convencionais da
amizade cordial condicionada. O Filho do Homem, como representante do Deus Não-Condicionado,
recusava-se a oferecer qualquer resposta condicionada, não importando a
situação social em que se encontrasse. Fosse diante de um rei, de um sacerdote
ou de uma prostituta, o que Jesus oferecia não era a resposta convencional,
estratégica, socialmente adequada e politicamente correta.
O que Ele oferecia, revolucionariamente, era a oferta de uma
vontade livre que não esperava outra coisa da pessoa com quem estava se
relacionando. Jesus estava à margem de qualquer domesticação ou
institucionalização das relações humanas. Sua história é narrada em 4 livros diferentes na Bíblia, porém não
escreveu livro algum e não deixou recomendação alguma para que algum seguidor
seu o fizesse.
O que faz o Filho do Homem nos evangelhos é basicamente
estar com as pessoas, aplicar-lhes a cura com o toque das mãos, andar sem
destino na beira do mar, levar a dúvida onde havia a certeza, levar a paz onde
havia a culpa.
O Homem de Nazaré abraça a experiência dos sentidos por completo, redimindo-a
em todas as suas idiossincrasias e limitações. Sua espiritualidade é a do
toque, da unção, da comida, da carne, do unguento, do aconchego no peito, do
vinho, da farinha, da fome, do barro, da saliva, da sede, do pão, da água, do
sangue.
O Reino que ele procura propor ou revelar é rigorosamente
este nosso mundo, transformado por mãos e olhos que ousem desvendá-lo ou
experimentá-lo, se é que existe diferença. Seu argumento é a comparação e sua
retórica, a narrativa, em especial a sua própria. Seu método e seu legado, aos
quais corresponde a sua mensagem, é existir. Seu significado, morrer e sua
herança é VIDA.
Tudo o que Jesus fez foi ser gente e estar com gente, e
deixou esta única recomendação. Se chegou até nós algum eco real e
transformador da vida e da vitalidade do rabi de pés empoeirados, foi através
do salto de gente sobre outra gente, chegou-nos pela vertigem multiplicadora de
onze que abraçaram cento e vinte, que a seu tempo tocaram outros mais, até
enfim, de VIDA em VIDA essa boa-nova tocar a nossa morte e em nós a VIDA continuar
se perpetuando no meio da gente.
© Rodrigo Quintã
© Rodrigo Quintã
