quarta-feira, 23 de abril de 2014






Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas a abraçarem uma ideia radical e revolucionária de convivência. Hoje em dia é preciso lembra-las, em primeiro lugar, do que é convivência; que há um mundo possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um mundo louco impulsionado pela graça fragilíssima da amizade e não pela sociedade de consumo, pela internet, pelos times de futebol, pela marca da roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares, religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.

Deus é amizade, e a linguagem da amizade é perpetuamente livre, provisória e gratuita; depende de sujeições voluntárias e de autonomias ininterruptamente soberanas.

O radical na mensagem de Jesus não está em Ele esclarecer o mais ou menos óbvio, que as amizades e os relacionamentos são vida e as instituições morte; o revolucionário está em que ele propõe o passo seguinte, definitivo e louco, e definitivamente redentor. Em suas palavras e exemplo, o nazareno explica que até as mais belas amizades podem se tornar morte, a não ser que se disponham a manter-se perpetuamente abertas, isto é dispostas a celebrar a própria precariedade e aceitar a inclusão de quem quer que seja em seu círculo de convivência.

Jesus desafiava continuamente esses limites convencionais da amizade cordial condicionada. O Filho do Homem, como representante do Deus Não-Condicionado, recusava-se a oferecer qualquer resposta condicionada, não importando a situação social em que se encontrasse. Fosse diante de um rei, de um sacerdote ou de uma prostituta, o que Jesus oferecia não era a resposta convencional, estratégica, socialmente adequada e politicamente correta.

O que Ele oferecia, revolucionariamente, era a oferta de uma vontade livre que não esperava outra coisa da pessoa com quem estava se relacionando. Jesus estava à margem de qualquer domesticação ou institucionalização das relações humanas. Sua história é narrada em  4 livros diferentes na Bíblia, porém não escreveu livro algum e não deixou recomendação alguma para que algum seguidor seu o fizesse.

O que faz o Filho do Homem nos evangelhos é basicamente estar com as pessoas, aplicar-lhes a cura com o toque das mãos, andar sem destino na beira do mar, levar a dúvida onde havia a certeza, levar a paz onde havia a culpa.

O Homem de Nazaré abraça a experiência dos sentidos por completo, redimindo-a em todas as suas idiossincrasias e limitações. Sua espiritualidade é a do toque, da unção, da comida, da carne, do unguento, do aconchego no peito, do vinho, da farinha, da fome, do barro, da saliva, da sede, do pão, da água, do sangue.

O Reino que ele procura propor ou revelar é rigorosamente este nosso mundo, transformado por mãos e olhos que ousem desvendá-lo ou experimentá-lo, se é que existe diferença. Seu argumento é a comparação e sua retórica, a narrativa, em especial a sua própria. Seu método e seu legado, aos quais corresponde a sua mensagem, é existir. Seu significado, morrer e sua herança é VIDA.

Tudo o que Jesus fez foi ser gente e estar com gente, e deixou esta única recomendação. Se chegou até nós algum eco real e transformador da vida e da vitalidade do rabi de pés empoeirados, foi através do salto de gente sobre outra gente, chegou-nos pela vertigem multiplicadora de onze que abraçaram cento e vinte, que a seu tempo tocaram outros mais, até enfim, de VIDA em VIDA essa boa-nova tocar a nossa morte e em nós a VIDA continuar se perpetuando no meio da gente. 


© Rodrigo Quintã