Por onde Jesus passava era possível ver crianças correndo em
volta e se misturando na multidão. Os discípulos tentaram impedir que as
crianças se amontoassem no colo de Jesus. Achavam que Jesus tinha coisa mais
importante para fazer do que dar atenção às crianças, mas acabaram descobrindo
que não apenas as crianças gostavam de Jesus, mas Jesus também gostava das
crianças. Numa dessas ocasiões, Jesus pegou uma criança no colo e deixou muito
claro que quem não se torna igual a uma criança não pode entrar no reino dos
céus, pois o reino dos céus pertence aos que são semelhantes às crianças
[Mateus 18.1-5; 19.13-15]. Naquele dia as crianças se tornaram um padrão para a
espiritualidade cristã.
Evidentemente, Jesus não pretendia que nos tornássemos
iguais às crianças em todas as dimensões da infância. As crianças, por exemplo,
não sabem o que é a gratidão, pois não têm noções de medidas abstratas. Não têm
condições de avaliar o que é feito por elas, não sabem quanto sacrifício é
necessário para que sejam cuidadas e não têm critérios para os custos da
dedicação dos pais ou o valor das coisas que são oferecidas a elas. Por isso é
que os pais vivem dizendo “diz obrigado para a titia”, “já disse obrigado para
o vovô?”, pois se não o fizessem, as crianças simplesmente pegariam o presente
e sairiam correndo para brincar. As crianças também não têm noções de tempo,
distância e volume. Por isso é que usam palitos de fósforo para marcar quantos
dias faltam para o passeio no zoológico, numa viagem longa perguntam de cinco
em cinco minutos se está chegando, e de noite, antes de irem para a cama, abrem
os braços e dizem com aquele sorriso lindo “mamãe, eu te amo desse tamanho
assim”.
As crianças também estão absolutamente fora das categorias
sociais de valores e importância. Tratam o general com a mesma displicência com
que tratam o zelador do prédio onde moram, e falam as maiores barbaridades
quando percebem algo inusitado em algum adulto que pretende conquistar sua
simpatia, deixando os pais envergonhados e constrangidos. Elas não sabem quem é
importante e quem não é. Elas ainda não foram contaminadas com os paradigmas do
mercado, que valora pessoas de acordo com posição social, conta bancária, ou
potencial de favorecimento e trocas de favores.
Isso significa que uma criança jamais perguntaria para Jesus
“quem é o mais importante no reino dos céus?”, pois não lhes passa pela cabeça
que um ser humano pode ser maior ou menor do que o outro em termos de valor
intrínseco – aliás, nem imaginam que exista ou o que seja esse tal de “valor
intrínseco”.
A exortação de Jesus aos seus discípulos sublinha exatamente
esses traços próprios das crianças: o absoluto despojamento das disputas de
poder e a absoluta ignorância a respeito das hierarquias que separam os seres
humanos uns dos outros, e promovem toda sorte de guerras e conflitos, que
somente se justificam pela vaidade e o orgulho dos egos que pretendem se
afirmar às custas da diminuição e destruição dos demais.
Como seria o mundo se todos tivéssemos o coração das
crianças? Teríamos breves desentendimentos, logo seguidos de um enxugar de
lágrimas e a correria reiniciada rumo à próxima brincadeira. Haveria mais
cooperação e menos competição, mais perdão e menos ressentimento e ódio, mais
partilha e menos acúmulo, maios brincadeira e menos agressões, mais amores e menores
dores.
O rabino Harold Kushner disse que as crianças perdoam rápido, e se
reconciliam na velocidade da luz, pois “preferem ser felizes a ter razão”. São
simples, e humildes, não se constrangem com vitórias e derrotas, pois não
competem, apenas brincam. Não estão no jogo de “quem é o maior e quem é o
menor”.
O relacionamento no Reino de Deus extrapola racionalidades,
como a relação das crianças.
O reino de Deus é um reino para gente com coração de
criança. Todo mundo brincando de roda, cada um segurando na mão do outro, sem
restrição para quem chegar, apoteose da fraternidade universal, sob a benção do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, numa santa e bendita folia. Coisa de criança.
“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco
de si, levam um pouco de nós.” (Antoine de Saint-Exupéry)

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